terça-feira, 28 de dezembro de 2010

15h43min

Senti uma ansiedade inexplicável diante da aparente chuva que estava por vir. Gosto de sons aleatórios, e de colocar sons aleatórios para tocar no aparelho de som. 


São os mais belos, costumo dizer, sempre num tom intelectual que na verdade soa bobo e vago. Apesar dos trinta e três graus lá fora, o céu começava a escurecer exatamente às quinze e quarenta e três da tarde. Não era uma escuridão qualquer, mas uma escuridão que dava a impressão de que as coisas mudariam dali pra frente. Pra pior ou melhor, ninguém sabia ao certo. 


Fazia apostas mentais sobre o caso, apostas mentais infantis que preferia guardar comigo mesmo. Tinha vergonha das minhas palavras. Vergonha das minhas ações. Não tinha vergonha, porém, de estar apaixonado. Não sabia onde estava se metendo e, caso soubesse, não estaria ali, observando pela janela as folhas das árvores caindo, anunciando o temporal. Não me encantaria tão fácil.. Facil como a maneira como me encanto quando você tão preocupado me faz apagar o cigarro. 


Os primeiros pingos da chuva começavam a despencar do céu. Atualmente a chuva me faz gritar pelo seu corpo naturalmente aquecido.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Espera

Aqueles dias pegara folga do estágio. Talvez tivesse sido a pior decisão. Enquanto tirava coisas dos armários, fazendo uma faxina, pela cabeça passavam coisas alheias. Minha cidade finalmente estava agradávelmente fria. O clima lá fora dissonava de seu ânimo sombrio, pesaroso, soturno, sorumbático, sepulcral.

Ele estava preocupado demais. Nada que fizesse tiraria aquilo de sua cabeça, e nada que fizesse aplacaria sua ansiedade, seu nervosismo. Só dali a três dias saberia a resposta que definiria o seu ano seguinte.


Na vida, quando nos deparamos com essas situações de impotência, quando tudo o que podia ser feito já foi feito e agora só resta esperar, temos toda a liberdade de nos distrair, fazer outras coisas, pensar em qualquer coisa. Mas ele não conseguia se desvencilhar. Pior: pensava na desgraça. Aquela angústia ia corroendo por todos os lados, deixava-o sem saída. Não encontrava descanso em si. Queria poder deixar de existir uns momentos. A existência o cansava.


A única maneira que encontrou de acalmar seus ânimos foi fazer planos. Construir o futuro caso a resposta fosse negativa. Esses planos eram ruins. Ele planejava as coisas mais medíocres. Chegou a pensar em abandonar o amor. Não sabia bem por quê; dava a impressão de que estava no controle da própria vida, que não era refém das situações. Mera ilusão.
Talvez seja isso que importe mesmo.


Deu tudo certo.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Perdidos

Era uma tarde quente e silenciosa. Talvez o silêncio da tarde de um dia qualquer na minha cidade. Eu fui ao encontro de Lenita. A mais antiga e mais importante amiga que tive. 


O endereço, enviado via shout qualquer, correspondia a um bar onde as pessoas não bebiam e onde as cervejas não faziam sentido. Tudo naquele lugar parecia errado. Minha paixão por coisas sem sentido não me permitiu achar que estava no lugar errado. 


Tocava algo Lo-Fi que por 15 minutos não consegui identificar, depois percebi que eram os ruídos de um radio antigo e sua eterna tentativa de sintonizar algo. Faltavam alguns minutos pras seis da tarde, quando uma menina entrou no bar. 


Ela usava um vestido curto de cor rosa cujo corte parecia ter sido geometricamente planejado, seus cabelos eram cacheados e seu sorriso parecia estar determinado a conquistar todos que a vissem. Era Lenita, lá estava ela, de novo, com a mesma expressão de quando eu a conheci ha cinco anos atrás. Quando ela de fruzinho no cabelo, queria ser punk e eu viciado nos clipes da Madonna, queria ser hétero. Já sentada e pós alguns minutos de silêncio, ela pediu uma cerveja.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Toma um fósforo, acende o teu cigarro!

Às vezes um gesto ou uma ação me faz pensar nas consequências de ser assim, só assim. Ser asssim é não pensar pelas escolhas cheias de orgulho e reservas de antes pras coisas que são agora. 


Às vezes acho que estou preso em uma eterna e tênue armadilha que traz a insegurança e a insatisfação de não estar inteiro em tudo que faço. Logo, penso ser uma mentira. 


Um meio antigo, inimigo da minha paixão avassaladora: o medo. O medo do silêncio que precede a possibilidade de um não sonoro do mundo. Acho que a minha irresponsábilidade está na sinopse do meu fracasso. Tenho medo de parecer alimento imaginário das almas que suscetíveis a qualquer adversidade escondem-se nas sombras do que não são.



Ser infeliz em todos os aspectos,
Exceto amoroso,
Que seja então.