Meu baú é velho,
fedorento e cheio de sentimentos inúteis. Meu baú tem o nome do primeiro cara
que eu beijei, tem a minha primeira música favorita, tem a minha primeira
decepção. Meu baú carrega a nossa coleção de discussões, a nossa coleção de erros, a nossa coleção de abraços
apertados. Meu baú concentra um cardápio tão grande de sensações, que às vezes
quero entrar lá e sentir alguma de novo. Meu baú é tão pedante que transforma
tudo o que carrega em tesouro, toda aquela nudez intelectual em clichê e
justifica ser aprendizado.
Falo sobre o
meu baú na mesa do bar, vivo esse minuto sabendo que vou me orgulhar dele no
minuto seguinte. Deve ser
perturbante olhar para o minuto anterior querendo que ele não tivesse existido,
ou negando a existência desse. Alguns escrevem os seus minutos com um lápis bem
fraquinho na mão direita e uma borracha na mão esquerda. Alguns preferem não
gostar do minuto anterior para viverem melhor esse minuto. Mal sabem que esse
minuto também vai passar.