quinta-feira, 28 de junho de 2012

Dane-se a sensatez


Era a oitava apresentação da noite. O barulho da empolgação das pessoas se misturava ao barulho dos outros quatro shows que aconteciam ali, numa simultaneidade que incomodava pela rapidez com que todo mundo passava por mim, deixando a sensação de que ali não era o melhor lugar para ficar.

Eu não esperava,  já havia me conformado em vê-lo apenas a cada duas horas e logo perdê-lo de vista, tendo que aguardar os astros o trazerem de volta para que pudéssemos trocar sorrisos disfarçados novamente.

E que disfarce, ele disfarça desinteresse olhando pra baixo, ele disfarça a falta de um agasalho com uma jaqueta jeans surrada, ele incomoda disfarçando o desenho dos seus lábios com uma barba laranja que irrita de tão sexy. Ele irrita. Irrita porque eu não precisava, eu não precisava perder horas achando que aquela janela do Gtalk é a coisa mais importante do meu dia, eu não precisava achar que agora a minha felicidade depende de um avião, eu precisava achar que estou sendo insensato em não parar por aqui e eu não quero parar,  eu não quero parar de querer arrancar todos os seus botões apenas com o que eu posso dizer através do teclado.

Eu tenho medo. Medo de você passar como um trêm desgovernado e atropelar a minha alma. Eu tenho medo de ser um saquinho frágil de bolinhas de gude e de você me abrir, deixar as minhas bolhinhas correrem cada uma para um canto do mundo e entrarem pelas valetas do universo. E eu nunca mais conseguir me juntar do jeito que sou agora. Eu tenho medo de nunca mais ouvir Trouble e sentir que aquele refrão deveria durar três vezes mais.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Troco órgãos por cubos de gelo

18 anos e uma coleção riquíssima em pessoas que simplesmente se foram. Algumas eu comemorei, com largos sorrisos e longas tragadas de nicotina, já outras se foram deixando crateras a nível dos alpes holandenses, como ladrões que passaram numa moto e arrastaram parte dos meus órgãos, num assalto ao restante de esperança em um dia compartilhar ao menos uma lágrima com alguém.

O organismo sempre reage. Reage cobrindo todo o restante vivo com uma camada sólida de gelo impermeável, tão eficaz quanto meia dúzia dessas vacinas que oferecem por ai. O resultado de tudo isso é uma existência gélida. O barulho das árvores balançando com o vento me emociona mais que a fome na África, o oitavo segundo de Pass This On me arrepia mais que a morte de um parente, a cena em que a Charlotte canta num karaokê em Tokyo me excita mais que qualquer grafismo muscular.

Talvez um dia eu olhe para todas aquelas fotos em sépia e sinta uma pontada na nuca por não ter insistido mais. Até lá, eu prefiro acreditar que nenhum sentimento é capaz de preencher o tamanho do buraco que eu me tornei. Não consigo sofrer porque sofrer seria menos do que eu sinto.  Ela preferiu me enterrar juntos aos seus dois gatos.