Amizades são como partes do corpo que perdemos e ao longo da
vida reencontramos, aos poucos, acidentalmente. São como parentes que
escolhemos ter. É tudo como pintar um quadro com as tintas certas, com certeza
dos efeitos de cada pincelada, sabendo em que momento a tela branca da sua
rotina vai precisar daquele marrom clarinho, perfeito quando só precisamos
desabafar.
Infelizmente em algumas situações não dá pra misturar essas
tintas porque elas já são resultados de muitas outras misturas, chegando ao tom
ideal. Misturar é perigoso porque o quadro pode acabar se tornando vazio, um
ready made de cores sem sentido, sem conceito, sem vida, incapaz de ocupar
qualquer espaço da imensa parede de concreto cinza que é a minha vida. Eu
misturei.
Posso parecer um esposo psicopata que segue o marido no
caminho de casa, mas é assim. Eu gosto quando converso com Pedrinho e sinto uma
sensação única, porque com ele eu falo mais sobre sexo e adoro ouvir as suas
histórias de quando ele se relacionava à três. Com joãozinho eu falo sobre
arte, ele é crítico e sempre tem resenhas próprias decoradas sobre todos os
álbuns da última semana. A Vânia é a minha amiga dos conselhos, sempre fala
exatamente o que eu preciso ouvir, sem nenhum filtro verbal - outro dia ela
disse que o meu relacionamento à distância não passa de falta de sexo.
Os atrativos são diferentes e é exatamente isso que me
encanta, cada cor no seu espaço. Quando Pedrinho, Joãozinho e Vânia se
conhecem, eles começam a ter internas entre si, começam a marcar cinemas,
começam a arght. É quando o Pedrinho bobo e sensato fica fútil e efusivo.
Joãozinho inteligente e visionário fica vazio e desinteressante. É quando estar
com Vânia é como estar com qualquer outra pessoa e é mais atrativo comprar um
livro de autoajuda a esperar pelos seus conselhos.
Pronto, o quadro está feio, os seus amigos não passam de
bibelôs empeirados numa estante velha. Você se sente frustrado, quase pronto
para derramar toda as tintas na pia e nunca mais passar naquela papelaria.
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