segunda-feira, 9 de julho de 2012

O desbotado da vida

Amizades são como partes do corpo que perdemos e ao longo da vida reencontramos, aos poucos, acidentalmente. São como parentes que escolhemos ter. É tudo como pintar um quadro com as tintas certas, com certeza dos efeitos de cada pincelada, sabendo em que momento a tela branca da sua rotina vai precisar daquele marrom clarinho, perfeito quando só precisamos desabafar.

Infelizmente em algumas situações não dá pra misturar essas tintas porque elas já são resultados de muitas outras misturas, chegando ao tom ideal. Misturar é perigoso porque o quadro pode acabar se tornando vazio, um ready made de cores sem sentido, sem conceito, sem vida, incapaz de ocupar qualquer espaço da imensa parede de concreto cinza que é a minha vida. Eu misturei.

Posso parecer um esposo psicopata que segue o marido no caminho de casa, mas é assim. Eu gosto quando converso com Pedrinho e sinto uma sensação única, porque com ele eu falo mais sobre sexo e adoro ouvir as suas histórias de quando ele se relacionava à três. Com joãozinho eu falo sobre arte, ele é crítico e sempre tem resenhas próprias decoradas sobre todos os álbuns da última semana. A Vânia é a minha amiga dos conselhos, sempre fala exatamente o que eu preciso ouvir, sem nenhum filtro verbal - outro dia ela disse que o meu relacionamento à distância não passa  de falta de sexo.

Os atrativos são diferentes e é exatamente isso que me encanta, cada cor no seu espaço. Quando Pedrinho, Joãozinho e Vânia se conhecem, eles começam a ter internas entre si, começam a marcar cinemas, começam a arght. É quando o Pedrinho bobo e sensato fica fútil e efusivo. Joãozinho inteligente e visionário fica vazio e desinteressante. É quando estar com Vânia é como estar com qualquer outra pessoa e é mais atrativo comprar um livro de autoajuda a esperar pelos seus conselhos.

Pronto, o quadro está feio, os seus amigos não passam de bibelôs empeirados numa estante velha. Você se sente frustrado, quase pronto para derramar toda as tintas na pia e nunca mais passar naquela papelaria. 

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