Era a oitava apresentação da
noite. O barulho da empolgação das pessoas se misturava ao barulho dos outros
quatro shows que aconteciam ali, numa simultaneidade que incomodava pela
rapidez com que todo mundo passava por mim, deixando a sensação de que ali não
era o melhor lugar para ficar.
Eu não esperava, já havia me conformado em vê-lo apenas a cada
duas horas e logo perdê-lo de vista, tendo que aguardar os astros o trazerem de
volta para que pudéssemos trocar sorrisos disfarçados novamente.
E que disfarce, ele disfarça desinteresse
olhando pra baixo, ele disfarça a falta de um agasalho com uma jaqueta jeans
surrada, ele incomoda disfarçando o desenho dos seus lábios com uma barba laranja
que irrita de tão sexy. Ele irrita. Irrita porque eu não precisava, eu não
precisava perder horas achando que aquela janela do Gtalk é a coisa mais
importante do meu dia, eu não precisava achar que agora a minha felicidade
depende de um avião, eu precisava achar que estou sendo insensato em não parar
por aqui e eu não quero parar, eu não
quero parar de querer arrancar todos os seus botões apenas com o que eu posso
dizer através do teclado.
Eu tenho medo. Medo de você passar
como um trêm desgovernado e atropelar a minha alma. Eu tenho medo
de ser um saquinho frágil de bolinhas de gude e de você me abrir, deixar as
minhas bolhinhas correrem cada uma para um canto do mundo e entrarem pelas
valetas do universo. E eu nunca mais conseguir me juntar do jeito que sou agora.
Eu tenho medo de nunca mais ouvir Trouble e sentir que aquele refrão deveria
durar três vezes mais.
e isso tudo é muito lindo.
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