quinta-feira, 28 de junho de 2012

Dane-se a sensatez


Era a oitava apresentação da noite. O barulho da empolgação das pessoas se misturava ao barulho dos outros quatro shows que aconteciam ali, numa simultaneidade que incomodava pela rapidez com que todo mundo passava por mim, deixando a sensação de que ali não era o melhor lugar para ficar.

Eu não esperava,  já havia me conformado em vê-lo apenas a cada duas horas e logo perdê-lo de vista, tendo que aguardar os astros o trazerem de volta para que pudéssemos trocar sorrisos disfarçados novamente.

E que disfarce, ele disfarça desinteresse olhando pra baixo, ele disfarça a falta de um agasalho com uma jaqueta jeans surrada, ele incomoda disfarçando o desenho dos seus lábios com uma barba laranja que irrita de tão sexy. Ele irrita. Irrita porque eu não precisava, eu não precisava perder horas achando que aquela janela do Gtalk é a coisa mais importante do meu dia, eu não precisava achar que agora a minha felicidade depende de um avião, eu precisava achar que estou sendo insensato em não parar por aqui e eu não quero parar,  eu não quero parar de querer arrancar todos os seus botões apenas com o que eu posso dizer através do teclado.

Eu tenho medo. Medo de você passar como um trêm desgovernado e atropelar a minha alma. Eu tenho medo de ser um saquinho frágil de bolinhas de gude e de você me abrir, deixar as minhas bolhinhas correrem cada uma para um canto do mundo e entrarem pelas valetas do universo. E eu nunca mais conseguir me juntar do jeito que sou agora. Eu tenho medo de nunca mais ouvir Trouble e sentir que aquele refrão deveria durar três vezes mais.

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