segunda-feira, 25 de junho de 2012

Troco órgãos por cubos de gelo

18 anos e uma coleção riquíssima em pessoas que simplesmente se foram. Algumas eu comemorei, com largos sorrisos e longas tragadas de nicotina, já outras se foram deixando crateras a nível dos alpes holandenses, como ladrões que passaram numa moto e arrastaram parte dos meus órgãos, num assalto ao restante de esperança em um dia compartilhar ao menos uma lágrima com alguém.

O organismo sempre reage. Reage cobrindo todo o restante vivo com uma camada sólida de gelo impermeável, tão eficaz quanto meia dúzia dessas vacinas que oferecem por ai. O resultado de tudo isso é uma existência gélida. O barulho das árvores balançando com o vento me emociona mais que a fome na África, o oitavo segundo de Pass This On me arrepia mais que a morte de um parente, a cena em que a Charlotte canta num karaokê em Tokyo me excita mais que qualquer grafismo muscular.

Talvez um dia eu olhe para todas aquelas fotos em sépia e sinta uma pontada na nuca por não ter insistido mais. Até lá, eu prefiro acreditar que nenhum sentimento é capaz de preencher o tamanho do buraco que eu me tornei. Não consigo sofrer porque sofrer seria menos do que eu sinto.  Ela preferiu me enterrar juntos aos seus dois gatos.

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